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terça-feira, 8 de junho de 2010

O Personagem Pensa? (Parte 3 Final?)


O Rafael em seguida ao que Luiz salientou do texto de Eco toca no que de concreto esta naquele parágrafo :

É possível afirmar e até tomar como verdade personagens e narrativas que os envolvem, pois essa é característica da literatura, ou antes, das narrativas (seja oral, visual ou escrita) .

Somos educados a ver na estrutura narrativa um propósito, e a ver nessa história uma correlação de fatos que as afirmam como verdadeira.

Até aqui nada de novo.

Eu e o Rafael falamos muito da verossimilhança em uma narrativa, e de como ela confere credibilidade a um livro ou conto.
Antes de tudo, narrativas e personagens não são verdades (nem existem), são representações de verdades e ou mentiras, sendo assim um livro ou conto não precisa representar verdade alguma e nem se preocupar com a verossimilhança.

Espelhamos nas narrativas nossas lógicas mundanas, mas isso também não é uma regra, deveríamos ter nos livrado desse fardo a muito, muito tempo.

Nós poderíamos ter finalizado a discussão nesse comentário de um dos nossos membros:


"Personagem pensa? Não.

Eu penso por ele? Nunca.

Eu penso? Sim.

Pensamento existe? Sim.

Mas personagem não tem pensamento? Não.

Personagem existe? Não."

Acho que nós, de antemão, já tínhamos burlado essa via de interpretação lógica onde seria ridículo um personagem pensar. Porém esta via nos leva a outros questionamentos interessantes.


Penso, logo existo;
Não existo, logo nunca poderei pensar que penso e que existo;
Sendo assim, não escrevi essa frase.

Será possível escrever ou criar uma narrativa onde nenhuma das nossas regras servem de parâmetro?
Essas tentativas de oposição sempre caem em negativas ou inversões das nossas lógicas.

Por outro lado: teria relevância ler/ver/ouvir uma narrativa que não tivesse a mínima relação com nossa realidade? ou até, isso seria inteligível?

Por exemplo: um high fantasy, ou sci-fi nos fazem experimentar lugares que nunca estivemos ou poderíamos estar, mas conferem realidade a essas dimensões. nos colocam na posição de descobridores (genericamente falando).
Mas esta perspectiva, de descobrir, já confere padrões de avaliação com a nossa lógica vigente.

É importante lembrar que não somos escravos da verossimilhança. Porque no final estamos trabalhando com representações. Tudo é possível.

"Eu penso por ele? Nunca."

Acho que mesmo o personagem não existindo, podemos pensar por ele, seja como escritor ou como leitor (em diferentes níveis).

O personagem não existe no nosso mundo, mas ele tem uma existência, assim como cada sonho, ou devaneio que criamos em nossas mentes tem uma existência. Acontece que quando tentamos "agarrar", interagir ou conviver com um sonho/devaneio ele nos escapa, ou se transforma, não criamos um vinculo.

(Tem pessoas que criam vínculos com sonhos ou com pessoas que não existem, (rs) mas isso é assunto para outro tópico sobre transtornos psicológicos.)

O personagem não existe, mas ele tem uma existência (isso é possível?).

Ele não existe no nosso mundo, não possui a mesma existência que eu ou você, mas ele existe para seus semelhantes e em seu contexto.
Eu também, posso andar com Dante debaixo do meu braço a qualquer momento, e posso acompanhá-lo nos círculos do inferno.

Do mesmo modo posso escrever sobre um personagem, o Fabu, um estudioso da literatura, contar as desventuras e aventuras dele para meus amigos, mandar uma fofóca da vida dele por e-mail e as pessoas podem rir, chorar ou me achar um chato com esse papo de Fabu.

A narrativa é a forma de atingir a existência de Fabu, de qualquer outro personagem ou pessoa, seja no mundo da literatura ou no real respectivamente.
Partindo disso, eu acredito que é possível pensar pelo personagem, pensar com o personagem, antecipar pensamentos do personagem, e o que vai confirmar ou desmentir esses devaneios vai ser a narrativa.

Então concluindo:

Personagem em sua definição pura e lógica não pensa.

Mas ao trabalhar um personagem ou ler um personagem entramos em contato com sua existência e nessa existência é permitido tudo, até mesmo, o personagem pensar.

DIOGO (Nógue) NOGUEIRA ,
é Artista Visual,
Designer Gráfico e ilustrador.

terça-feira, 1 de junho de 2010

O Personagem Pensa? Parte 2


Nesta semana o segundo tempo da discussão "O personagem Pensa?"
Já chamamos para nossa roda Umberto Eco e Descartes, além de outros autores e livros que citamos como exemplos dos personagem pensantes.
Na primeira parte da discussão os membros (eu:Diogo) e Rafael, demos argumentos para afirmar que o personagem pensa, baseando sobretudo na questão da verossimilhança, que é necessária em um texto para imergir o leitor.

O juiz apita, jogando tais palavras em campo : Realidade, Verdade, Verossimilhança e Existência.

Percebemos que começamos a discussão burlando de antemão a via do raciocino lógico.

Deixamos todo o papo filosófico de lado e refizemos a pergunta: O personagem pensa?

E a resposta mais lógica é:
Ele não pensa, ele nem existe!

Pronto, poderíamos ter encerrado a discussão por aqui e ido ler um livro.
Alguns se deram por satisfeitos e se foram.
Maaas... as palavras estavam lá prontas para se filosofar... não resistimos.

Os personagens não existem, são representações, assim como uma narrativa é a representação, nunca a coisa em si. Então o que podemos dizer da verdade ou da mentira em uma narrativa?
A verdade, como aprendemos com a história, depende sempre do ponto de vista de quem a conta.
E a verossimilhança, é ingrediente principal de uma narrativa? já que estamos falando de representação, por que não esquecer do padrão de real e criar livres?

Rafael (Rato):

Entendo seu ponto quanto a verossimilhança, principalmente a questão linguística presente aí. Em geral, concordo com esse argumento quanto a verdade e quanto a ter "cara" de verdade. Difícil ver uma possibilidade de extirpar essa parte de nós, a parte que busca a verdade e não, digamos, a mentira. A verossimilhança aparece como a mediação entre verdade e mentira, a demonstração que verdade é um valor, pois passa a dar valor de verdade a mentiras.

Adentramos no inóspito território do valor.

Bom, temos nossos olhos. A partir deles construimos as medidas que nos vão dar o sentido de verdadeiro ou falso, contudo nossos olhos já são um resultado. Não partimos de uma "tabula rasa" mas somos construídos a partir de uma série de noções providas socialmente. Procuramos na "realidade", que é nosso olhar, a base para a produção desse valor.

Deste modo, se represento a dor da perda, quem tomar contato com essa representação deverá conhecer esse sentimento, para então conseguir apreende-lo, ou seja, para dar valor de verdade a ele. Caso seja a representação de um sentimento, ou de algo que suporte apenas "sim" e não", então temos como resultado um valor de verdade. No caso de representar algo mais "concreto", como um homem, podemos ter o valor de verossimilhança, pois é possível atrelar o verdadeiro a algo que seja falso.

A importância do nosso olhar é que ele mesmo já é representação da realidade (nós não temos acesso a realidade mesma), assim a produção artística passa a ser um bigode numa mona lisa que chamamos realidade, mas que já é interpretação.

Retomo o pensamento de David Hume, o qual questiona a verdade do principio de causalidade... Ao vermos algo ocorrendo, como ao jogarmos uma maçã da janela, podemos afirmar sem dúvida que aquela maçã caiu da janela, mas não que a próxima maçã que jogarmos fará o mesmo. Assim nos habituamos a crer que o que acontece sempre continuará acontecendo sempre... Como ao vermos o pensamento sempre ligado ao Eu.

Por isso, que disse desde o início que o personagem pensa e que o problema maior é a realidade, a realidade do personagem (se ele existe) e a realidade do artista (se ele existe), que o pensamento existe é algo difícil de refutar... Assim, o pensamento do personagem existindo o faz tão real quanto eu, o Álvaro de Campos, vocês ou o Fernando Pessoa.
Voltemos com o Umberto...
Eco, tem mais alguns comentários?


Umberto (Eco):

Sobre o modelo de verdade afirmado em textos literários :
"Para muitos, essas coisas poderão parecer obviedades, mas tais obviedades (muitas vezes esquecidas) confirmam o mundo da literatura como inspirador da fé na existência de certas proposições que não podem ser postas em dúvida, com o que ele oferece um modelo de verdade, ainda que imaginário."

Sobre tomar um personagem literário como representação, ponto de referencia, uma verdade :
"Mas certos personagens literários, não todos, acabam saindo do texto em que nasceram e migrando para uma região do universo muito difícil de delimitar."

"Fazemos investimentos afetivos individuais em muitas fantasias que criamos nos nossos devaneios. Podemos realmente nos comover pensando na morte de uma pessoa amada, ou ter sensações físicas ao imaginar um contato erótico com essa pessoa"

"Teríamos então de encontrar a região do universo em que esses personagens vivem e determinam nosso comportamento, tanto que os tomamos como modelo de vida, própria e alheia, e entendemos muito bem quando se diz que alguém sofre de complexo de Édipo, tem uma fome de Pantagruel, um comportamento quixotesco, os ciúmes de um Otelo, uma dúvida hamletiana ou é um don Juan incorrigível."

Com esses trechos de Eco damos fim ao segundo tempo, o juiz marca a prorrogação. No proximos post o deradeiro (será o fim mesmo?) resultado da discussão "O Personagem Pensa?"

domingo, 23 de maio de 2010

O Personagem Pensa?



A alguns meses surgiu na lista de discussão do Fábulário a questão "O personagem pensa?" A pergunta surgiu com o Luiz, que leu um texto de Umberto Eco sobre a função da literatura.

Nesta postagem vamos mostrar o desenrolar e o resultado da discussão quase que metafísica da existência do personagem e seu pensamento.

e Começa a partida...


Luiz (Falcão):
Com a palavra, Umberto Eco:

"Podemos fazer afirmações verdadeiras sobre personagens literários porque o que lhes acontece está registrado em um texto, e um texto é como uma partitura musical. É
verdade que Anna Karenina se suicida, assim como é verdade que a "Quinta Sinfonia" de Beethoven foi escrita em dó menor (e não em fá maior, como a "Sexta") e se inicia com "sol, sol, sol, mi bemol". (...)"

Daí para admitir que o personagem pensa é um passo!

Rafael (Rato) :
Acho que ele não está defendendo que o personagem pensa, mas que podemos falar verdades sobre personagens (que não existem)...

Isso ao menos mostra que coisas, as quais estão em torno do personagem, podem ser verdadeiras. Talvez perfazendo um mundo e dando esse valor de realidade ao pensamento do personagem.

Mesmo assim acho que a discussão é um pouco vazia se não soubermos o que estamos chamando de pensamento, pois parece que personagem já temos claro...

Será que os personagens ainda pensam?


Segundo Descartes (1596-1650),"a essência do homem é pensar". Por isso dizia: "Sou uma coisa que pensa, isto é, que duvida, que afirma, que ignora muitas, que ama, que odeia, que quer e não quer, que também imagina e que sente".

F
oi ele também quem disse: "Penso, logo existo"


Pode se considerar pensamento a ação dos nossos neurônios em receber e transmitir estímulos, seja para nossa movimentação, ou sensação.

Mas a palavra pensamento, na verdade carrega consigo várias outras funções do nosso cérebro, tais como :Imaginação, raciocínio, atenção, percepção, memória e juízo.

"A essência do homem é pensar", a característica principal que transferimos a um personagem.
Rafael (Rato):

Um personagem como o Rodia do Crime e Castigo pensa e podemos dizer com uma veracidade nem sempre encontrada em pessoas, mas isso me parece bem conectado a "lírica" própria do texto.

(...)Nós conseguimos ver uma relação de causa e efeito operando e por isso algumas vezes podemos até antecipar estes pensamentos.
O personagem pensa assim, porque suas ações transmitem a nós alguma familiaridade, elas nos transmitem verossimilhança mesmo quando estão colocadas distantes da verdade.

Existem outras questões, por exemplo o Drácula, que é escrito em diários. Nesse caso o pensamento dos personagens é a única história, não há livro sem que os personagens pensem e por isso há comunicação total do personagem com o leitor.

Outra possibilidade fácil é o abuso desta questão dentro da narrativa, o que é feito na "literatura contemporânea". Vemos personagens que não só pensam, mas o fazem de um jeito quebrado, por diversos motivos... Problemas mentais, vivencias únicas, estranhamento do trabalho, ou apenas pelo rumo incomum da história... Nesses a mágica fica por parte de eliminar de vez a verdade e trabalhar com uma verossimilhança tênue.

Eis que entram em jogo a verossimilhança, a verdade e a representação do pensamento.

Nós, como leitores, entramos em contato com o pensamento do personagem ou do escritor?

e como escritores, pensamos pelo personagem, somos o personagem?
Diogo (Nógue):

Enquanto está se construindo a personagem, desenvolvendo sua índole, seu caráter, dando-lhe qualidades, ferramentas, ela automaticamente vai ganhando uma certa autonomia.

Ao colocar essa personagem em determinado contexto é esperado que ela tenha determinadas
ações. e é nesse ponto que alguns escritores, no mínimo desatentos, tiram a verossimilhança de uma ação da personagem e tira a "magia" ou imersão do livro.

Uma tática para tornar a personagem um gênio que sempre tem resposta pra tudo é colocar diante dele um problema que o leitor ou qualquer outra pessoa normalmente não teria a solução. mas você como autor tem a resposta desse problema e vai adicionar ao personagem um conhecimento, qualidade ou ferramenta extremamente necessária para solucionar o problema em questão.

Até então o leitor (as vezes nem o escritor) imaginava que a personagem era capaz de tal ato, mas o contexto exigiu um desafio que é vencido abrindo na personagem portas desconhecidas.
Exemplos disso são o Sherlock Holmes, o seu antecessor Auguste Dupin, e seu filho mais novo (e menos dotado literariamente falando) Robert Langdon, e até o famoso MacGyver (também conhecido como Magaiver hehe )

As vezes um escritor que não leva em conta o pensamento do seu personagem acaba o levando a ações descabidas para chegar em um objetivo pré-definido.

Acho que tudo começa no princípios básicos da nossa realidade : Pessoas pensam para executar ações, e o leitor transfere isso para o personagem que mesmo tendo sua existência apenas no papel, por ter características humanas, se enquadra na regra.
é papel do escritor corresponder a essa regra, ou dar suporte para quebrá-la.



Termina o primeiro tempo:
Até aqui o time dos apoiadores do Personagem pensante ganhou, mas nem todos concordam com isso. Na próxima postagem o jogo continua, e faremos uma lobotomia em campo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O Livro de Tunga e sua abordagem do Fantástico

Tunga

O Fabulário, além de ser um blog e uma revista de literatura, é também um grupo de discussão do fantástico nas artes. Nos últimos tempos, por inúmeros motivos, as discussões e pesquisas se fixaram mais no terreno da literatura. O maior responsável por isso talvez seja nosso pequeno rebento (A revista). Em segundo lugar, pode-se perceber pelos marcadores do blog, o cinema é outra arte bastante citada entre nós.

Compartilhamos entre os membros o desejo de falar de diversas outras artes cujo fantástico é fonte de alimento. Entre elas as Artes Visuais e a Música, e, quem sabe em momentos de mais desprendimento, o Teatro e a Dança. Mas como para nós, (e acho que posso falar por todos do grupo), palpite por palpite, opinião por opinião não é o que interessa como produto final, pode demorar um pouco esses assuntos chegarem por aqui.

Falar do que nos instiga, observar, debater abordagens e soluções em todo e qualquer gênero para se criar um repertório além dos clichês, dos caminhos pobres, ou até mesmo usá-los com consciência. Esse é o objetivo que acredito ser interessante.
Após o Luiz estrear a tag "música" fiquem com a estréia da tag "artes visuais"

Boa Leitura a todos


Xipófagas Capilares
Xifópagas Capilares


O Artista

Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão ou Tunga, como ficou conhecido mundialmente, é um artista brasileiro nascido em 1952 em Pernambuco. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1974, onde cursou Arquitetura, atuando, porém, como artista plástico após se formar, ganhando diversos prêmios durante as décadas de 80, 90, que impulsionaram sua carreira.

Sendo um dos artistas contemporâneos mais conhecidos e elogiados atualmente, Tunga já fez exposições nos principais museus e galerias de todo mundo, incluindo o MoMA em Nova York, o Louvre em Paris entre tantos outros.

Suas obras que mais se destacam são geralmente esculturas e performances, que levam sua marca em acabamentos perfeitos, demonstrando sua grande dedicação no desenvolvimento de seus projetos.


Tranças das Xifópagas Capilares
Tranças das Xifópagas Capilares.

Para saber mais sobre o artista veja sua pagina no site do Itaú Cultural, ou ainda, leia duas de suas entrevistas no Jornal da Folha on-line aqui, e aqui.



O Pretexto

O novo projeto (não tão novo assim, já que foi lançado em 2007) A Caixa de Tunga é o pretexto inicial para essa postagem. A caixa traz uma coleção de livros com obras do artista, cada um com formatos diferentes, diversos papéis e camadas de impressões. Um item de colecionador de arte, que, como tal, teria o preço de um órgão humano no mercado negro. Porém, a Cosac Naify não o produziu para ganhar muita grana, mas apenas para comemorar os 10 anos da editora, e sendo assim, distribuiu os 500 exemplares impressos entre universidades (publicas e privadas) e bibliotecas de todo o país.

E se você já clicou no link ali, ou acessou em outra ocasião  a página d'A Caixa de Tunga no site da CosacNaify, já ficou sabendo que, além disso, os livros estão disponíveis em pdf para serem baixados por quem se interessar. Sem vender seu olho ou seu coração é fácil ter a caixa de Tunga em casa. Pode ser que a sua não seja imantada, nem que tenha camadas de verniz etc, mas quem liga? Esqueça o fetiche do papel e se divirta.

Mas caso você ainda queira sentir cada um dos livros, é só conferir a lista de bibliotecas que possuem um exemplar e ir na mais próxima de você: eu recomendo! Você vai se perder entre dobras e mais dobras, pôsteres e impressões tão boas que te colocam quase em frente a obra. (eu sei, é um exagero)
E se você gostar bastante e ficar triste por não poder ter um em casa, a Cosac já pensou nisso e colocou um link para o primeiro livro lançado na editora, pelo mesmo Tunga, o Barroco de Lírios.

Encarnações Miméticas

Encarnações Miméticas

Fotos do livro Encarnações Miméticas. Performance de mesmo nome.


"Cada livro desse seria uma espécie de barco num oceano, solto. Então, em cada momento, qualquer um dos leitores pode se tornar o capitão de um desses barcos e ir em direção a um outro barco e ocupar um outro barco e reformar a sua própria frota de pequenos barcos, que são esses livros. Quer dizer, eu vejo esses livros com uma certa independência e, ao mesmo tempo, com uma natureza muito próxima."
(Tunga em entrevista por Antonio Gonçalves Filho, também presente no site da "Caixa")


Performance Pequeno Milagre fotos do livro Se essa Rua fosse minha.


O Trabalho

Dois pontos a se ressaltar sobre a obra de Tunga são sua pesquisa e o processo de desenvolvimento.

Seus trabalhos tem como início, muitas vezes, fatos cotidianos, acontecimentos da sua vida ou a relação entre duas coisas diferentes. Um caminho comum também é a sua relação com outras áreas de conhecimento, como a literatura, filosofia, química e biologia que servem de alimento de pesquisa para suas obras. É nessa construção de relações que os trabalhos de Tunga são criados.

Seus projetos passam dessa idéia inicial para a pesquisa, da pesquisa para o desenho, e, a partir do momento que ganha o papel, ela se torna um ser vivo, pois o artista passa a desenvolvê-las, recriá-las e desdobrá-las no decorrer dos anos.


Desdobramentos da obra olho por olho


Com frequência, Tunga busca a ancestralidade, a história dos objetos, dando preferência a fontes mitológicas e ritualísticas de antigas civilizações. Seus objetos são deslocados no tempo trazendo dentro de si conceitos e marcas de lugares distantes.

A obra Olho por Olho é um bom exemplo do método de Tunga. No livro de mesmo nome, o artista conta que esta obra teve início quando ele encontrou dentes de leite de uma amiga de infância guardados em uma pequena caixinha e para surpreendê-la desenvolveu uma pequena jóia com os dentes incrustados e a presenteou.

No decorrer do desenvolvimento desse trabalho, Tunga pretendia um "restauro de uma mistificação dos dentes", gerida pelo fato destes terem uma grande importância ritualística nas antigas civilizações. Invocando uma aura mágica e estranha ao mesmo tempo, Tunga vai desdobrando esse trabalho com diversas combinações, entre desenhos, esculturas e performances. De imensos dentes de metal pendurados por enormes correntes a pequenos dentes de porcelana perdidos em um chão cheio de leite em pó. o artista brinca com jogos de palavras, ou transforma os dentes em um jogo de xadrez em escala humana, onde os visitantes podem escolher tomar o lugar de uma das peças para jogar.

Um outro trabalho de Tunga que teve início nos dentes é o filme Medula, que aparece também no livro Olho por Olho como um conto no mínimo estranho e uma sequência de fotos, que mostra um casal se preparando para uma festa. O marido vai fechando o longo vestido da esposa, porém os botões são dentes humanos.



frames de Medula presente no livro Olho por Olho



"Como duas coisas se encontram? O que acontece do encontro dessas duas coisas? Por que essas coisas se encontram? E como do encontro pode vir a se produzir uma terceira coisa que não está nem na primeira, nem na segunda. Uma questão de como dois corpos ocupam o mesmo lugar, ao mesmo tempo, e formam um terceiro sentido que não está nem em um, nem em outro."
 (Tunga)

Não pretendo com essa postagem colocar rótulos ou enquadrar artistas. O interessante de se falar da obra de Tunga é que não há nada explícito em sua construção. Seria muito fácil relacionar artistas que pintam fadas, elefantes cor-de-rosa ou coisa que o valha com a aura do fantástico e, sobretudo, seria um problema enorme. Se começar um caminho como este, pode-se pegar uma maquina de rotular e ir etiquetando todos os artistas da idáde média, os clássicos, todas as vanguardas e muitos artistas contemporâneos em gêneros (o que seria um erro e nada interessante). Por isso, meninos e meninas, tomem cuidado, isso serve tanto para Arte Visuais como para a Literatura.


DIOGO NOGUEIRA ,
é Designer Gráfico e ilustrador,
estudante de Artes Pláticas
no Unicentro Belas Artes


quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Areia nos Dentes

areia nos dentes

Areia nos Dentes, primeiro romance do porto alegrense Antônio Xerxenesky, nos foi dado de presente numa noite chuvosa do mês de agosto, devidamente autografado por seu autor. Aqueles que tiveram a oportunidade de ver um livro autografado por Antônio já se depararam com sugestivos desenhos: o meu exemplar vem com um polvo sorridente denominado “Cthulhu feliz”, para que não houvessem dúvidas de sua procedência.

Levei para casa, como promessa, um livro de faroeste com zumbis. Weird Western com experimentações pós-modernas e fanfarronices metalinguísticas. Um pastiche que não faz você rolar de rir, mas deixa no ar um clima de absurdo. Ok, o livro não ficou a dever nenhum destes elementos. Mas se olharem a fundo, com atenção, sem piscar uma só vez, vão notar que Areia nos Dentes é uma história sobre o porão dos Marlowes.

Martin Ramirez, o filho bom e corajoso do clã dos Ramirez, arrisca sua vida numa noite trêmula tentando descobrir o que raios havia no porão dos Marlowes. Uma bala súbita, vinda só Deus sabe de onde, quase o atinge. Martin foge, corre pelas areias de Mavrak, chega são e salvo em casa. Na manhã seguinte, é encontrado morto com uma bala cravejada nos intestinos. Assim começa a história contada por um filosófico senhor mexicano chamado Juan, a história de seus antepassados.

O livro segue alternando hora para o velho mexicano, seus copos de tequila e sua inquietação diante da distancia afetiva do filho, hora para a história dos Ramirez e dos Marlowes, envolvendo intrigas e duelos em Mavrak, mulheres desinibidas, um xerife forasteiro e alguns mortos-vivos. Assim como Juan, o leitor percebe não se tratar apenas de um faroeste excêntrico, e sim uma história sobre pais e filhos. Sobre o medo do novo (as terríveis metralhadoras que habitariam o porão dos Marlowes ou o computador que corrompe parte do texto de Juan com um vírus?) e o medo na noite.

Ficamos sem saber o que há de tão misterioso no indevido porão, assim como não sabemos quem atirou em Martin e nem com quantos homens Vienna dormiu enquanto seu namorado estava viajando. Um pacto foi quebrado: aquele que, em letras miúdas, obriga o narrador a não deixar pontos sem nó e, ao final da história, colocar tudo em pratos limpos. O porão dos Marlowes permanece escuro como a noite, para que os leitores possam “preenchê-lo com os recantos mais escuros de suas próprias almas".

Saiba como adquirir o livro aqui.

CARA CAROLINA ,
é webdesigner e estudante
de Artes Plásticas pelo
Unicentro Belas Artes

sábado, 16 de agosto de 2008

Santo Polemista, Batman!

Batman tomando uma surra do Coringa

Não venho em defesa do Batman. Mesmo porque o Batman sabe se cuidar sozinho. Venho, na verdade, fazer a fama e a cama de um tipo de profissional bastante comum: o polemista gratuito.

Não sei quem cunhou o termo, que me parece ser do tipo de expressão que se faz sozinha, sem necessitar de autoria. Mas conheci a definição no blog Paralelos, postagem de André Luiz Mansur. Ao se referir ao escritor Fernando Vallejo, Mansur destrincha a verdadeira identidade do polemista, o homem que após "soltar suas bravatas" volta para si as atenções e ganha as bocas nas bancas de jornais e mesas de botecos, além de garantir os seus trocados no fim do mês.

Parece óbvio, tão óbvio quanto esquivar-se de defender o Batman, que o polemista gratuito adora que falem dele, sempre depois de sua declaração estrondosa. E eu estou aqui para fazer esse papel. Não, Vallejo, essa não é sua vez. Essa é a vez do Coutinho.

Não dá pra afirmar que João Pereira Coutinho - colunista da Folha de São Paulo, caderno Ilustrada, às terças – é, de fato,um polemista gratuito. Acredito que a honra da nomeação só deve ser dada após a comprovação da alta frequência de falas polemistas proferidas pelo tal. E não é o caso de Coutinho. Me deparei, na verdade, com uma coluna oportunista naquela terça-feira, que foi passada de mão em mão até chegar a minha (o que prova que a polêmica gratuita causa furores até nos mais descompromissados indivíduos, fazendo questão de compartilhar com outrem tão abissal colocação).

A coluna intitulada “Adultos em Pijamas” fala sobre o quão o novo filme do Batman (Batman- The Dark Knight) era, simplesmente, ridículo. Baforada no charuto, olhar ao teto, Coutinho profere em papel jornal, letras garrafais: “Se fantasia já é difícil de engolir como fantasia, imaginem apresenta-la como 'documental'”. Um bom polemista espera a hora certa de falar. Coutinho caprichou: a coluna data de 29/07/08, pouco mais de uma semana após o tão aguardado lançamento mundial do filme norte-americano. Na mesma semana em que milhares e milhares e milhares de humanos comentam de cá pra lá, atravessando fronteiras, cruzando países via satélite, publicando em meios impressos e virtuais mensagens determinadas:

a) O quão legal é o novo filme do Batman

b) O quão tecnicamente bem executado é o novo filme do Batman

c) O quão inteligentes são os diálogos e morais afirmadas no novo filme do Batman

Num momento de euforia fulminante (se me permitem o recurso retórico), Coutinho escreve com arrogância, condenando não só o filme, como toda a linhagem de super-heróis.

Não defendo. Ninguém tem vontade de responder seriamente a Allejo sobre Ingrid Betancourt ou sobre qualquer outra bobagem que ele venha a proferir de boca cheia. Não é válido. A polêmica gratuita parece partir de uma premissa quase coringueana. Sua única lógica é a do escândalo.

Descambar mestres como Vallejo e Diogo Mainardi é difícil, sabemos. Mas, vejamos: talvez sobre um canto ao sol para Coutinho.

CARA CAROLINA ,
é webdesigner e estudante
de Artes Plásticas pelo
Unicentro Belas Artes