Nesta postagem vamos mostrar o desenrolar e o resultado da discussão quase que metafísica da existência do personagem e seu pensamento.
e Começa a partida...
Luiz (Falcão):Com a palavra, Umberto Eco:
verdade que Anna Karenina se suicida, assim como é verdade que a "Quinta Sinfonia" de Beethoven foi escrita em dó menor (e não em fá maior, como a "Sexta") e se inicia com "sol, sol, sol, mi bemol". (...)"
Daí para admitir que o personagem pensa é um passo!
Rafael (Rato) :Acho que ele não está defendendo que o personagem pensa, mas que podemos falar verdades sobre personagens (que não existem)...
Isso ao menos mostra que coisas, as quais estão em torno do personagem, podem ser verdadeiras. Talvez perfazendo um mundo e dando esse valor de realidade ao pensamento do personagem.
Mesmo assim acho que a discussão é um pouco vazia se não soubermos o que estamos chamando de pensamento, pois parece que personagem já temos claro...
Foi ele também quem disse: "Penso, logo existo"
Pode se considerar pensamento a ação dos nossos neurônios em receber e transmitir estímulos, seja para nossa movimentação, ou sensação.
Mas a palavra pensamento, na verdade carrega consigo várias outras funções do nosso cérebro, tais como :Imaginação, raciocínio, atenção, percepção, memória e juízo.
"A essência do homem é pensar", a característica principal que transferimos a um personagem.
Rafael (Rato):Um personagem como o Rodia do Crime e Castigo pensa e podemos dizer com uma veracidade nem sempre encontrada em pessoas, mas isso me parece bem conectado a "lírica" própria do texto.
(...)Nós conseguimos ver uma relação de causa e efeito operando e por isso algumas vezes podemos até antecipar estes pensamentos.
O personagem pensa assim, porque suas ações transmitem a nós alguma familiaridade, elas nos transmitem verossimilhança mesmo quando estão colocadas distantes da verdade.
Existem outras questões, por exemplo o Drácula, que é escrito em diários. Nesse caso o pensamento dos personagens é a única história, não há livro sem que os personagens pensem e por isso há comunicação total do personagem com o leitor.
Outra possibilidade fácil é o abuso desta questão dentro da narrativa, o que é feito na "literatura contemporânea". Vemos personagens que não só pensam, mas o fazem de um jeito quebrado, por diversos motivos... Problemas mentais, vivencias únicas, estranhamento do trabalho, ou apenas pelo rumo incomum da história... Nesses a mágica fica por parte de eliminar de vez a verdade e trabalhar com uma verossimilhança tênue.
Nós, como leitores, entramos em contato com o pensamento do personagem ou do escritor?
e como escritores, pensamos pelo personagem, somos o personagem?
Ao colocar essa personagem em determinado contexto é esperado que ela tenha determinadas
ações. e é nesse ponto que alguns escritores, no mínimo desatentos, tiram a verossimilhança de uma ação da personagem e tira a "magia" ou imersão do livro.
Uma tática para tornar a personagem um gênio que sempre tem resposta pra tudo é colocar diante dele um problema que o leitor ou qualquer outra pessoa normalmente não teria a solução. mas você como autor tem a resposta desse problema e vai adicionar ao personagem um conhecimento, qualidade ou ferramenta extremamente necessária para solucionar o problema em questão.
Até então o leitor (as vezes nem o escritor) imaginava que a personagem era capaz de tal ato, mas o contexto exigiu um desafio que é vencido abrindo na personagem portas desconhecidas.
Exemplos disso são o Sherlock Holmes, o seu antecessor Auguste Dupin, e seu filho mais novo (e menos dotado literariamente falando) Robert Langdon, e até o famoso MacGyver (também conhecido como Magaiver hehe )
As vezes um escritor que não leva em conta o pensamento do seu personagem acaba o levando a ações descabidas para chegar em um objetivo pré-definido.
Acho que tudo começa no princípios básicos da nossa realidade : Pessoas pensam para executar ações, e o leitor transfere isso para o personagem que mesmo tendo sua existência apenas no papel, por ter características humanas, se enquadra na regra.
é papel do escritor corresponder a essa regra, ou dar suporte para quebrá-la.
Até aqui o time dos apoiadores do Personagem pensante ganhou, mas nem todos concordam com isso. Na próxima postagem o jogo continua, e faremos uma lobotomia em campo.

Inspirada pelo Homem do Castelo Alto (Philip K Dick) decidi perguntar ao I CHING (Livro das Mutações - Oráculo Chinês) sobre o futuro do Fabulário... Eis a resposta:
Pra falar a verdade, relutei para entrar no grupo. Primeiro porque sempre detestei trabalhar em grupo. Segundo porque no início as reuniões ocorriam de madrugada, e eu como pessoa naturalmente diurna (daquelas que dormem em festas) não me sentia muito predisposta a varar noites semi-acordada. Terceiro porque acreditava que não poderia dar ao grupo tudo que ele necessitava: tempo, empenho, atenção.
Não faz muito tempo, fui convidado por dois bons amigos a dar uns “pitacos” em uma tal “produção independente de literatura fantástica”. Relutante em aderir a mais um projeto difícil, fui seduzido pelo potencial que senti ao ter em mãos a primeira edição do “Fabulário”.
Já faz algum tempo em que três de nós tiveram, em alguma madrugada aí, a idéia vaga de um grupo que discutisse e escrevesse literatura fantástica. Talvez por causa do sono que todos estavam no dia. Só sei que muita coisa mudou desde o tempo em que nós ficávamos discutindo até o fim da noite, muitas vezes sem sair do lugar e muitas sem mesmo precisar fazer isso.
Exatamente um ano depois (18 fev) eu "reinaugurei" nossa lista de discussão, motivado pelas reuniões que começamos a fazer nas madrugadas de domingo, em um apartamento na Parada Inglesa. Dessa vez foi de verdade.
A verdadeira história do Fabulário é o que venho expor neste post de aniversário. (Eu sou do tipo que sempre dá parabéns atrasado) Eis: Um dia, quando os titãs ainda punham seus pés sobre o solo, alguns Deuses da floresta comemoravam o qüinquagésimo sexto dia do ano em uma grande festa - no dia anterior haviam comemorado o qüinquagésimo quinto dia do ano.
Mário de Andrade dizia que cada poema tem uma gota de sangue e, se analisarmos bem, tudo que nós produzimos tem uma gota de sangue. Ao contrário do artista, o sangue não significa simplesmente uma parte da vida que se esvai e fica, mas a completude da eterna significação que nós damos a esse mundo.
