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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O Livro de Tunga e sua abordagem do Fantástico

Tunga

O Fabulário, além de ser um blog e uma revista de literatura, é também um grupo de discussão do fantástico nas artes. Nos últimos tempos, por inúmeros motivos, as discussões e pesquisas se fixaram mais no terreno da literatura. O maior responsável por isso talvez seja nosso pequeno rebento (A revista). Em segundo lugar, pode-se perceber pelos marcadores do blog, o cinema é outra arte bastante citada entre nós.

Compartilhamos entre os membros o desejo de falar de diversas outras artes cujo fantástico é fonte de alimento. Entre elas as Artes Visuais e a Música, e, quem sabe em momentos de mais desprendimento, o Teatro e a Dança. Mas como para nós, (e acho que posso falar por todos do grupo), palpite por palpite, opinião por opinião não é o que interessa como produto final, pode demorar um pouco esses assuntos chegarem por aqui.

Falar do que nos instiga, observar, debater abordagens e soluções em todo e qualquer gênero para se criar um repertório além dos clichês, dos caminhos pobres, ou até mesmo usá-los com consciência. Esse é o objetivo que acredito ser interessante.
Após o Luiz estrear a tag "música" fiquem com a estréia da tag "artes visuais"

Boa Leitura a todos


Xipófagas Capilares
Xifópagas Capilares


O Artista

Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão ou Tunga, como ficou conhecido mundialmente, é um artista brasileiro nascido em 1952 em Pernambuco. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1974, onde cursou Arquitetura, atuando, porém, como artista plástico após se formar, ganhando diversos prêmios durante as décadas de 80, 90, que impulsionaram sua carreira.

Sendo um dos artistas contemporâneos mais conhecidos e elogiados atualmente, Tunga já fez exposições nos principais museus e galerias de todo mundo, incluindo o MoMA em Nova York, o Louvre em Paris entre tantos outros.

Suas obras que mais se destacam são geralmente esculturas e performances, que levam sua marca em acabamentos perfeitos, demonstrando sua grande dedicação no desenvolvimento de seus projetos.


Tranças das Xifópagas Capilares
Tranças das Xifópagas Capilares.

Para saber mais sobre o artista veja sua pagina no site do Itaú Cultural, ou ainda, leia duas de suas entrevistas no Jornal da Folha on-line aqui, e aqui.



O Pretexto

O novo projeto (não tão novo assim, já que foi lançado em 2007) A Caixa de Tunga é o pretexto inicial para essa postagem. A caixa traz uma coleção de livros com obras do artista, cada um com formatos diferentes, diversos papéis e camadas de impressões. Um item de colecionador de arte, que, como tal, teria o preço de um órgão humano no mercado negro. Porém, a Cosac Naify não o produziu para ganhar muita grana, mas apenas para comemorar os 10 anos da editora, e sendo assim, distribuiu os 500 exemplares impressos entre universidades (publicas e privadas) e bibliotecas de todo o país.

E se você já clicou no link ali, ou acessou em outra ocasião  a página d'A Caixa de Tunga no site da CosacNaify, já ficou sabendo que, além disso, os livros estão disponíveis em pdf para serem baixados por quem se interessar. Sem vender seu olho ou seu coração é fácil ter a caixa de Tunga em casa. Pode ser que a sua não seja imantada, nem que tenha camadas de verniz etc, mas quem liga? Esqueça o fetiche do papel e se divirta.

Mas caso você ainda queira sentir cada um dos livros, é só conferir a lista de bibliotecas que possuem um exemplar e ir na mais próxima de você: eu recomendo! Você vai se perder entre dobras e mais dobras, pôsteres e impressões tão boas que te colocam quase em frente a obra. (eu sei, é um exagero)
E se você gostar bastante e ficar triste por não poder ter um em casa, a Cosac já pensou nisso e colocou um link para o primeiro livro lançado na editora, pelo mesmo Tunga, o Barroco de Lírios.

Encarnações Miméticas

Encarnações Miméticas

Fotos do livro Encarnações Miméticas. Performance de mesmo nome.


"Cada livro desse seria uma espécie de barco num oceano, solto. Então, em cada momento, qualquer um dos leitores pode se tornar o capitão de um desses barcos e ir em direção a um outro barco e ocupar um outro barco e reformar a sua própria frota de pequenos barcos, que são esses livros. Quer dizer, eu vejo esses livros com uma certa independência e, ao mesmo tempo, com uma natureza muito próxima."
(Tunga em entrevista por Antonio Gonçalves Filho, também presente no site da "Caixa")


Performance Pequeno Milagre fotos do livro Se essa Rua fosse minha.


O Trabalho

Dois pontos a se ressaltar sobre a obra de Tunga são sua pesquisa e o processo de desenvolvimento.

Seus trabalhos tem como início, muitas vezes, fatos cotidianos, acontecimentos da sua vida ou a relação entre duas coisas diferentes. Um caminho comum também é a sua relação com outras áreas de conhecimento, como a literatura, filosofia, química e biologia que servem de alimento de pesquisa para suas obras. É nessa construção de relações que os trabalhos de Tunga são criados.

Seus projetos passam dessa idéia inicial para a pesquisa, da pesquisa para o desenho, e, a partir do momento que ganha o papel, ela se torna um ser vivo, pois o artista passa a desenvolvê-las, recriá-las e desdobrá-las no decorrer dos anos.


Desdobramentos da obra olho por olho


Com frequência, Tunga busca a ancestralidade, a história dos objetos, dando preferência a fontes mitológicas e ritualísticas de antigas civilizações. Seus objetos são deslocados no tempo trazendo dentro de si conceitos e marcas de lugares distantes.

A obra Olho por Olho é um bom exemplo do método de Tunga. No livro de mesmo nome, o artista conta que esta obra teve início quando ele encontrou dentes de leite de uma amiga de infância guardados em uma pequena caixinha e para surpreendê-la desenvolveu uma pequena jóia com os dentes incrustados e a presenteou.

No decorrer do desenvolvimento desse trabalho, Tunga pretendia um "restauro de uma mistificação dos dentes", gerida pelo fato destes terem uma grande importância ritualística nas antigas civilizações. Invocando uma aura mágica e estranha ao mesmo tempo, Tunga vai desdobrando esse trabalho com diversas combinações, entre desenhos, esculturas e performances. De imensos dentes de metal pendurados por enormes correntes a pequenos dentes de porcelana perdidos em um chão cheio de leite em pó. o artista brinca com jogos de palavras, ou transforma os dentes em um jogo de xadrez em escala humana, onde os visitantes podem escolher tomar o lugar de uma das peças para jogar.

Um outro trabalho de Tunga que teve início nos dentes é o filme Medula, que aparece também no livro Olho por Olho como um conto no mínimo estranho e uma sequência de fotos, que mostra um casal se preparando para uma festa. O marido vai fechando o longo vestido da esposa, porém os botões são dentes humanos.



frames de Medula presente no livro Olho por Olho



"Como duas coisas se encontram? O que acontece do encontro dessas duas coisas? Por que essas coisas se encontram? E como do encontro pode vir a se produzir uma terceira coisa que não está nem na primeira, nem na segunda. Uma questão de como dois corpos ocupam o mesmo lugar, ao mesmo tempo, e formam um terceiro sentido que não está nem em um, nem em outro."
 (Tunga)

Não pretendo com essa postagem colocar rótulos ou enquadrar artistas. O interessante de se falar da obra de Tunga é que não há nada explícito em sua construção. Seria muito fácil relacionar artistas que pintam fadas, elefantes cor-de-rosa ou coisa que o valha com a aura do fantástico e, sobretudo, seria um problema enorme. Se começar um caminho como este, pode-se pegar uma maquina de rotular e ir etiquetando todos os artistas da idáde média, os clássicos, todas as vanguardas e muitos artistas contemporâneos em gêneros (o que seria um erro e nada interessante). Por isso, meninos e meninas, tomem cuidado, isso serve tanto para Arte Visuais como para a Literatura.


DIOGO NOGUEIRA ,
é Designer Gráfico e ilustrador,
estudante de Artes Pláticas
no Unicentro Belas Artes


quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Areia nos Dentes

areia nos dentes

Areia nos Dentes, primeiro romance do porto alegrense Antônio Xerxenesky, nos foi dado de presente numa noite chuvosa do mês de agosto, devidamente autografado por seu autor. Aqueles que tiveram a oportunidade de ver um livro autografado por Antônio já se depararam com sugestivos desenhos: o meu exemplar vem com um polvo sorridente denominado “Cthulhu feliz”, para que não houvessem dúvidas de sua procedência.

Levei para casa, como promessa, um livro de faroeste com zumbis. Weird Western com experimentações pós-modernas e fanfarronices metalinguísticas. Um pastiche que não faz você rolar de rir, mas deixa no ar um clima de absurdo. Ok, o livro não ficou a dever nenhum destes elementos. Mas se olharem a fundo, com atenção, sem piscar uma só vez, vão notar que Areia nos Dentes é uma história sobre o porão dos Marlowes.

Martin Ramirez, o filho bom e corajoso do clã dos Ramirez, arrisca sua vida numa noite trêmula tentando descobrir o que raios havia no porão dos Marlowes. Uma bala súbita, vinda só Deus sabe de onde, quase o atinge. Martin foge, corre pelas areias de Mavrak, chega são e salvo em casa. Na manhã seguinte, é encontrado morto com uma bala cravejada nos intestinos. Assim começa a história contada por um filosófico senhor mexicano chamado Juan, a história de seus antepassados.

O livro segue alternando hora para o velho mexicano, seus copos de tequila e sua inquietação diante da distancia afetiva do filho, hora para a história dos Ramirez e dos Marlowes, envolvendo intrigas e duelos em Mavrak, mulheres desinibidas, um xerife forasteiro e alguns mortos-vivos. Assim como Juan, o leitor percebe não se tratar apenas de um faroeste excêntrico, e sim uma história sobre pais e filhos. Sobre o medo do novo (as terríveis metralhadoras que habitariam o porão dos Marlowes ou o computador que corrompe parte do texto de Juan com um vírus?) e o medo na noite.

Ficamos sem saber o que há de tão misterioso no indevido porão, assim como não sabemos quem atirou em Martin e nem com quantos homens Vienna dormiu enquanto seu namorado estava viajando. Um pacto foi quebrado: aquele que, em letras miúdas, obriga o narrador a não deixar pontos sem nó e, ao final da história, colocar tudo em pratos limpos. O porão dos Marlowes permanece escuro como a noite, para que os leitores possam “preenchê-lo com os recantos mais escuros de suas próprias almas".

Saiba como adquirir o livro aqui.

CARA CAROLINA ,
é webdesigner e estudante
de Artes Plásticas pelo
Unicentro Belas Artes

sábado, 13 de dezembro de 2008

Novo clipe do Metallica é história alternativa com Zumbis...

...Ficção científica e Nostalgia da Gerra Fria. O clipe mistura live-action com efeitos especiais e tem partes em animação. Imperdível, gostando ou não de Metallica (eu, por exemplo, assisti a primeira vez ouvindo outra música).

Para quem quiser conferir no site da Banda (numa qualidade melhor): http://metallica.com/index.asp?item=601688.



LUIZ PIRES,
é webdesigner e estudante
de Artes Plásticas no Unicentro
Belas Artes

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Breve pós-cobertura da 32º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

O momento já veio e já passou. Mas como a intenção aqui não é simplesmente dar o serviço, vamos ver o que podemos tirar de mais proveitoso da 32º Mostra Internacional de Cinema.

A Mostra, que já está em sua 32º edição, é um momento celebrado por muitos em São Paulo por diversos motivos. Para mim, o primeiro deles é bastante óbvio: por um curto período de tempo, filmes do mundo todo são trazidos para São Paulo. Isso mesmo, do mundo todo. São filmes que nunca chegarão aqui em outro momento e dificilmente você verá circulando novamente. Além destes, há os filmes que estrearão no circuito mais a frente. Para os mais ávidos, esta é a oportunidade de vê-los antes de todo mundo.

Depois de uma maratona de encaixes, filas e mais filas e correrias, consegui ver alguns dos filmes que queria. Destaco primeiramente os que trazem algo que dialoga com alguns interesses do Fabulário e outras minhas: o não-óbvio, fronteiriço, "os mares nunca dantes navegados" (se é que isso pode existir) do fantástico. Vamos a eles:


Fronteira da Alvorada, de Philippe GarrelA Fronteira da Alvorada: o cineasta francês Philippe Garrel faz um filme de muitas faces, em que se destacam as referências à nouvelle vague e ao expressionismo alemão, trazendo também o elemento fantástico. O protagonista François é um fotógrafo que se apaixona por uma atriz com rosto de quase-diva, Carole. O relacionamento dos dois acaba não dando lá muito certo e a mocinha vai parar num manicômio. Após este momento, o filme parece tomar outros rumos. Um tanto perturbado, François se vê de frente a um acontecimento sobrenatural, sofrendo assim de um sentimento Todoroviano:
a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, face a um acontecimento aparentemente sobrenatural". Interessante observar que, embora peculiares, os momentos fantásticos - que beiram o delírio, mas ao final revelam ao espectador sua autenticidade de forma quase alegórica - encaixam-se perfeitamente num roteiro predominantemente realista.

Palermo Shooting, do diretor Win WendersPalermo Shooting: O mais novo filme do alemão Win Wenders foi apontado pela crítica especializada como sendo também o pior. De Wenders entendo muito pouco, mas de fato os clichês estão lá, a olho nu. Porém, trazer como referência tão direta os filmes Depois daquele Beijo, de Antonini e o Sétimo Selo, de Bergman é algo no mínimo curioso. Mais curioso que isto é o fato deste filme, assim como o Fronteira da Alvorada, ter como protagonista um fotógrafo. Finn - muito bem sucedido na sua carreira internacional no mundo das artes e da moda - após passar por uma experiência de quase-morte, viaja para Palermo, onde passa a ser perseguido por um misterioso atirador de flechas. Em Depois daquele Beijo o protagonista do filme é um fotógrafo e a fotografia, a "essência do trabalho" nas palavras de Wenders, é o assunto. Em O Sétimo Selo, o protagonista joga xadrez com a morte, que mesmo perdendo o jogo, continua a persegui-lo. Segundo Wenders, a preocupação com a passagem do tempo, a chegada da velhice e, conseqüentemente, o encontro com a morte é o maior tabu no cinema e que talvez, pela temática "ofensiva", o filme tenha sido tão criticado em Cannes. O encontro do protagonista com a morte é um tanto didático, mas representa também um claro acerto de contas.

Duska, de Jos StelingDuska: Jos Steling é conhecido por trazer a tona personagens atípicos, silenciosos, à parte do mundo, como em O Holandês Voador. Neste, o diretor holandês nos faz enfrentar o irritante Duska, um homem atrapalhado (e folgado) que só vem empacar a vida de outro homem (também um tanto atrapalhado), crítico de cinema solitário. Duska é um personagem que está no território do estranho. As ações e escolhas dele e de seu anfitrião (Duska se instala na casa do pobre crítico) não podem ser explicadas pela lógica comum. Não chegam a beirar o absurdo, mas ainda estão longe do real. O filme se move nos silêncios. E o final é esquisitíssimo. Conclusão: se houver a oportunidade de ver, não perca.

Festa da Menina Morta, estréia de Mateus Nachtergaele na direçãoA Festa da Menina Morta: o filme marca a estréia como diretor e roteirista do brasileiro Matheus Nachtergaele, já reconhecido ator de teatro e cinema. Numa comunidade ribeirinha do Amazonas ocorre a Festa da Menina Morta, evento religioso que relembra um suposto milagre ocorrido à 20 anos atrás com o protagonista Santinho. Esta história, porém, se revela aos poucos e não chega a se completar com clareza. O filme segue cercado nesta atmosfera de crendice e certo naturalismo exacerbado, até que a fronteira entre o real, a alucinação e o fantástico se nubla num dos momentos mais ricos do filme. Longe de ser uma crítica a religiosidade brasileira, o filme fica na fronteira entre o retrato fiel e o olhar direcionado. Como jé era esperado, confrontos morais e ousadia no uso da linguagem do cinema pedem um espectador atento, sem pressa - e nem vontade - de chegar a vereditos.


Vi outros filmes especialmente bons nesta mostra que também valem ser lembrados:

Vicky Cristina Barcelona, o acerto de Woody AllenVicky Christina Barcelona: novo filme de Woody Allen conta (literalmente) a história de duas amigas que vão tirar férias em Barcelona. Lá conhecem um clássico latino caliente que, por alguns instantes, parece mudar os rumos da vida de ambas, embora a entonação de voz de um narrador oculto permaneça igualmente sóbria e indiferente. O filme tem um sintonia finíssima e mostra que depois dos insossos Macht Point e Scoop, Woody Allen chegou lá.

Cinzas do Passado Redux, de Wong Kar WayCinzas do Passado Redux: filme remontado, refinalizado graficamente e reduzido do original de 1995 de Wong Kar-Wai. Com enredo fragmentado e intrincado, o filme narra um ano da vida de um misterioso espadachim que vai morar no deserto após a mulher que ele amava ter se casado com seu irmão. Outros personagens igualmente misteriosos vão se somando à história, tendo sempre como ponto em comum alguma relação com este primeiro personagem: um homem e uma mulher que dividem um mesmo corpo; um espadachim quase cego que deseja voltar a sua terra natal; um homem que, após tomar um vinho mágico, perde a memória. Ao desenrolar da história, as peças vão se encaixando e o espectador percebe que o enredo, aparentemente simples, possui muitas faces e arestas.

CARA CAROLINA ,
é webdesigner e estudante
de Artes Plásticas pelo
Unicentro Belas Artes

terça-feira, 27 de maio de 2008

O amigo do meu amigo é meu inimigo (?)

Me surpreendi quando entrei, por estes dias, no blog do Fernando Trevisan. E foi uma boa surpresa. Ainda sobre resenhas negativas! e texto anterior Sobre resenhas negativas. Os textos falam sobre como os autores recebem críticas dirigidas a seu trabalho.

O assunto é recorrente desde o início nas reuniões do nosso grupo - antes de qualquer texto entrar para o fanzine, ou assim que ele termina de ser produzido, uma saraivada de críticas é disparada de todos os lados pelos outros membros do grupo, sem piedade. Nem tudo é aproveitado pelo autor (é claro, graças a deus). Me senti um pouco identificado com a postura expressa pelo Fernando. Um pouco.

A postagem dele sobre o assunto me lembrou um artigo do Marcelo Simão Branco que eu havia lido, há algum tempo. Ele fala sobre o que está convencionado chamar por aí de "fandom", mais especificamente, ao que parece pelo contexto do artigo, de um grupo específico inserido nesse cenário:

"(...) O problema é que esta comunidade, a título de se defender do mundo externo, digamos assim, meio que se enquadrou numa espécie de guetto, por vezes com atitudes pouco profissionais, nos quais a atividade da crítica, por exemplo, tem sido severamente desestimulada, quase como se fosse um ambiente de patota, dos amigos que escrevem e não podem ser francos uns com os outros para não ferir suscetibilidades. Outro problema, decorrente em parte deste é a falta de pressão para se escrever melhor, porque não existe um cenário profissional que estimule a competição entre os autores por textos e histórias de melhor qualidade. Ou seja, é uma comunidade que passou a gradativamente desestimular um desenvolvimento artístico mais maduro e profissional."

- Marcelo Simão Branco, no artigo Por que a Ficção Científica Brasileira é invisível e marginalizada?

Não tem desculpa. Sem crítica não há desenvolvimento do trabalho - de qualquer trabalho. O sujeito que não quer ouvir crítica, que só quer regozijo, não quer mudar o que escreve, talvez não esteja nem muito interessado no que escreve afinal.

E com a não-crítica institucionalizada fica difícil colaborar para um cenário com melhor qualidade (seja de produção, seja de compreensão e discussão acerca dos temas e objetos literários). Uma profusão de textos resenhísticos, muitas vezes releases de textos de orelha que não fazem mais do que uma propaganda de comercial nivelam por baixo o circuito da literatura fantástica e congêneros. Para quem produz resenhas ou textos reflexivos sobre a produção desses grupos é um alívio ver-se em um contexto no qual os autores não o odiarão por ser sincero.

E o sistema, se continuar institucionalizado assim, não poupará ninguém. Se ele perdurar, restará ignorar o que não consideramos e super-valorizar (para equilibrar a balança) aquilo que nos é de apreço.

Por aí parece que é diferente, mas para mim é frustrante. Quanto as pessoas dizem "é, está bem escrito" ou o maldito "gostei, legal" e variantes, não adianta nada, isso é ponto comum. Certa vez ouvi um escritor dizer que ficou emocionado, realizado, quando viu o primeiro perfil fake de Orkut com o nome de um personagem do livro dele. Não sei o que passa pela cabeça desse escritor, mas eu não consigo ver nada de bom nisso.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

O fabuloso imaginário de Terry Gilliam


Dado que eu não consigo resenhar a tempo os filmes que estréiam e que todo mundo já viu, ouviu e falou, sigo na linha de resenhar os filmes que chegam aqui no Brasil com enorme atraso, com baixa distribuição (veja bem, em DVD, no cinema eles nem chegam...) e que, consequentemente, ninguem vê.

Resenhei para o fanzine beta o filme Mirrormask, de Gaiman e McKean. Agora é a vez de Tideland, de Terry Gilliam.

É provavel que “Os Irmãos Grimm” tenha forrado os bolsos de Gilliam o bastante pra que ele partisse para uma produção independente e despretenciosa. David Lynch começou a conceber Veludo Azul durante as filmegens de Duna. Terá ocorrido um caso parecido?

Tideland conta a história de Jeliza-Rose, uma pequena de 10 anos perdida em um ambiente desértico em condições insólitas. A criança cria em sua mente fantasias escapistas que, durante o filme, são transportadas para o mundo real. Some isso às aparições de uma taxidermista macabra e seu irmão lobotomizado e temos uma verdadeira galeria de cenas de um estranho universo infantil.

O filme foi rechaçado pela crítica, quando não simplesmente desconsiderado. Basta dar uma rodada na internet para encontrar fãs de Gilliam profundamente decepcionados, analisando os fatores psicológios que o levaram a conceber um filme tão.... infilmável!

As reclamações são variadas: falta de lógica, não-linearidade da trama, sequência de imagens bem concebidas estéticamente, mas sem solidez e, pra fechar com chave de ouro, “abordagem leviana e imprudente de temáticas chocantes” como pedofilia, necrofilia, terrorismo e drogas.

O mais curioso é o fato de elogiarem Gilliam pelo que mais os incomoda: a teimosia em ultrapassar os cerceamentos comuns do cinema norte-americano. "Grande parte das coisas que perturbaram os espectadores no filme foram trazidas por eles mesmos para a sala do cinema", disse Gilliam em resposta às críticas, acrescentando ainda que basta voltar a pensar como uma criança para o filme tornar-se “pura alegria”. Eu diria que basta se livrar das constantes injeções de moral que levamos pra dentro e pra fora das salas de cinema, os tabus e as amarras sociais. Só uma platéia totalmente anestesiada poderia afirmar que o filme não passa de um codidiano repetitivo de uma criança esquizofrênica.

O fato é que Tideland é um filme inteligente, feito com capricho e cheio de nuances. Os personagens são bem trabalhados e fogem do lugar comum. Como exemplo, Jeff Bridges (Noah, pai de Jeliza) fica quase todo o filme no papel de homem-múmia, o que não o diferencia muito do seu estado anterior de homem dopado. É, enfim, um filme altamente recomendável, mas talvez não para toda a família. Pra quem gosta (e suporta) ver Gilliam em plena forma, aí está uma boa oportunidade.

Dizem ser o cinema uma arte pragmática. Eu ainda acredito que basta haver um homem com boas idéias e uma câmera na mão.

CARA CAROLINA ,
é webdesigner e estudante
de Artes Plásticas pelo
Unicentro Belas Artes



sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Inércia

Inércia, curta metragem

No último post deste Blog, o Tadeu já anunciou que a edição #2 do Fabulário vai ter um tema: relações fáusticas. Como uma de nossas motivações ele apontou o artigo de Filipi Andrade, para a edição #1.

Outra influência para a escolha esteve em nossa viagem a Ilha Comprida, na Mostra de Curta Metragem Fantástico. Um dos filmes, muito aguardado por nós (especialmente por mim e pelo tadeu, tenho certeza) foi Inércia, que supostamente envolvia um pacto com o Demônio.

Um filme sem dúvida origina, seja na linguagem cinematográfica, seja no enredo.

Para quem tiver uma conexão melhorzinha, vale a pena assitir no site oficial da produção, em melhor resolução. Colocamos o filme, mais leve, a disposição logo abaixo.


Inércia parte 1:


Inércia parte 2:


Agradeço a equipe e produção do Inércia e a JSnet, por disponibilizar o filme para assistir na web! Muito bom!

link para o site oficial do curta:
http://jsnet.com.br/inercia/



LUIZ PIRES,
é webdesigner e estudante
de Artes Plásticas no
Unicentro Belas Artes


quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Fabulário #2 - Relações Faústicas

Já começou o processo de produção do Fabulário número dois. Desta vez, optamos por fazer um fanzine temático e, ao que tudo indica, seguiremos essa linha de agora em diante, nos outros números.

O tema escolhido foi "relações fáusticas", do qual uma das inspirações foi certamente o artigo sobre o assunto do nosso colaborador Filipi Andrade no Fabulário #1. A idéia é explorar todas as possibilidades que oferece o tema, partindo sim do famoso pacto demoníaco feito por Fausto, mas tentando atingir os possíveis desdobramentos desta relação, que pode ir além de "uma história em que um homem associa-se ao demônio".

Ainda não existe data prevista para o lançamento do novo número, no entanto, enquanto isso, acompanhando nossas pesquisas, colocaremos aqui alguns posts sobre o assunto.

TADEU COSTA ANDRADE,
é estudante do curso de
Letras na FFLCH - USP

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

II Mostra de Curtas Fantásticos de Ilha Comprida

Encerram agora no final de setembro as inscrições de vídeos para a 2° Mostra de Curtas Fantásticos de Ilha comprida!


O evento, realizado pela FlyCow produções e pela Prefeitura de Ilha Comprida, abre no dia 14 de novembro e encerra no sábado dia 18, aproveitando o feriado prolongado.

Ilha Comprida fica no litoral sul de São Paulo. Chegar até lá para alguns pode parecer desanimador a princípio, mas pelo jeito vai valer o esforço.

O objetivo da mostra é trazer à tona a produção de novos diretores e estudantes, além de potencializar as discussões na área e motivar novos projetos. Na primeira edição do evento, no ano passado, a mostra contou com curta-metragens excelentes (como Historietas Assombradas para crianças malcriadas) e os premiados lá foram exibidos também no 2° FANTASPOA (veja mais abaixo).

De cara, (feliz ou infelizmente) isso já torna a mostra uma das mais importantes do gênero no Brasil.

Quem tiver interesse em embarcar nesta jornada pode descobrir algumas rotas através do site Guia da Ilha Comprida.

site do evento:
http://www.mostracurtafantastico.com.br/

como chegar:
http://www.guiadailhacomprida.com.br/ilha/como_chegar.asp


CONHEÇA TAMBÉM O FANTASPOA,
28 SET - 07 OUT

Festival de cinema fantástico de Porto Alegre

FANTASPOA - Site Oficial da 3° Ed (ótimo)
Programação - Santander Cultural

Como é bom ver cinema fantástico (pra valer), cobertura (2° ed) de Eduardo EGS no site Overmundo (excelente)



LUIZ PIRES,
é webdesigner e estudante
de Artes Plásticas no
Unicentro Belas Artes



a II Mostra de Curta-Metragem Fantástico de Ilha Comprida foi uma indicação do colaborador L R Fernandes à nossa lista de discussão

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Processo Criativo e Observação


Pode-se igualmente compará-lo a um espelho tão imenso quanto essa multidão; a um caleidoscópio dotado de consciência, que, a cada um de seus movimentos, representa a vida múltipla e o encanto cambiante de todos os elementos da vida.


- Charles Baudelaire, “O Pintor da Vida Modena”



Talvez alguém se pergunte porque um tema tão geral para uma primeira postagem de um grupo que diz que tem como foco o fantástico. Talvez essa mesma pessoa ache tudo isso irrelevante e... tenha razão. Por que, mesmo sabendo disso, estou escrevendo esse texto? Tenho visto esse tema incomodar a muitas pessoas há tempo: o problema da criatividade, da inspiração. Quando olhamos o escritor do fantástico, também é de se esperar que ele seja muito perturbado por isso (se não for mais do que os outros), uma vez que sempre lhe é cobrado o novo, o encantador. Se eu quero dar uma solução? Por ora não me sinto capaz. O que gostaria de fazer é agrupar algumas considerações que fiz sobre o assunto e, no mínimo, expô-las para alguns amigos, que só as ouviram de forma esparsa.

Se a inspiração é um acontecimento de natureza misteriosa e repentina que oferece uma idéia para a criação de uma obra de arte, eu não acredito nela, pelo menos não muito. Se eu dependesse dessa inspiração, raramente teria escrito uma linha. Acabei encontrando refúgio em outro procedimento que também acabei nomeando, carinhosamente, inspiração. Mais do que iluminação, ele tem muito mais a ver com observação e, por mais que isso pareça contraditório à criação, realidade.


Pelo menos nós que vivemos na grande cidade, às vezes não nos damos conta do número de coisas que acontece à nossa volta: o incontável número de pessoas que vemos, as diversas frases que ouvimos, os inumeráveis eventos que presenciamos e mesmo a quantidade de coisas levemente inexplicáveis que ignoramos. São tantos rostos, roupas... Nós paramos para pensar o que eles significam? Os carros vêm e vão, nunca param. Para onde será que vão todos eles? As duas coisas poderiam dar ótimas histórias. Uma vez vi um acontecimento bastante estranho: eu estava no metrô com um amigo e, de repente, o condutor disse que alguém havia morrido por ter caído na via. Nunca tinha ouvido isso falado de forma tão direta, fiquei espantado, no entanto, quando olhei em volta, o que mais me admirou foi a indiferença na expressão dos passageiros e ainda mais, a frase de despreocupação do meu amigo quando comentei o fato. Independentemente do que pode ser uma “lição de moral”, tanto o acontecimento quanto a reação das pessoas me deram um conto inteiro.


É uma posição parecida com a de um poeta de que gosto muito, Baudelaire.1 Falando de um artista que admirava, ele louvou sua capacidade de, como uma criança, “se interessar intensamente pelas coisas, mesmo por aquelas que aparentemente se mostram as mais triviais”, identificando esse poder com o gênio ( que para ele é como uma infância redescoberta)2. A diferença entre o artista e a criança seria que o primeiro tem suas habilidades desenvolvidas, podendo transformar suas impressões em arte.


Mas alguém poderia dizer: “Observar a realidade: essa não é uma atitude que leva o realismo? Ela não é oposta à fantasia?”. Talvez para responder, eu posso recorrer a Baudelaire novamente: segundo ele, a imaginação ( curiosamente phantasie, em francês) “decompõe toda a criação, e, com os materiais acumulados e dispostos conforme regras das quais não podemos encontrar origem senão no mais profundo da alma, ela cria um mundo novo, produz a sensação do novo”3. Não vemos muitas vezes na fantasia elementos da realidade desconstruídos e recombinados? Não é o minotauro uma mistura de homem e touro? A esfinge de leão, mulher e águia? Tomar a realidade como ponto de partida não significa imitá-la servilmente. É mais como uma coleta de ingredientes que, juntos, cuidadosamente dosados pelo feiticeiro, formam uma poção.


Essas são mais ou menos as idéias que eu queria expor, que, apesar de estarem muito longe de uma visão definitiva sobre a criatividade, me ajudaram a atingir um pouco dela. Espero que possam servir a mais alguém.

A imagem “http://strictement-confidentiel.com/images/photos/baudelaire.jpg” contém erros e não pode ser exibida.

Baudelaire




TADEU COSTA ANDRADE,
é estudante do curso de
Letras na FFLCH - USP




1Poeta francês do século XIX considerado o fundador da poesia moderna e, também, pai do simbolismo. (artigo na Wikipedia : http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Baudelaire . Artigo mis vasto, em espanhol: http://es.wikipedia.org/wiki/Charles_Baudelaire)

2 O texto em questão é “O pintor da vida moderna”, sendo o artista Constantin Guys. O fato de Baudelaire falar de um pintor e não de um escritor não é um problema, uma vez que ele constantemente aproxima as duas artes.
3A afirmação está no texto “Salão de 1859”.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Fabulário Blog

Fábula veio do latim "fabula", que significa história, não no sentido do estudo do passado mas sim de conto, de narrativa. Com o tempo, a palavra passou a estar mais associada às histórias de fundo moral que envolviam animais e objetos inanimados, no entanto, este não foi o único significado reconhecido. Diversas palavras que derivaram de "fábula" mostram os mais diversos significados: "fabular", contar; "confabular", mentir, "personagem fabuloso", personagem ficcional, "fabuloso", incrível, maravilhoso. A ligação maior entre as muitas faces desta palavra é a relação com o "imaginário", com o "incrível".

E o que é um fabulário senão uma coleção destas histórias, destes contos, destas narrativas fantásticas que perambulam pelo imaginário dos povos? O que é senão uma fonte de mundos e situações possíveis e impossíveis onde os homens buscam sua diversão (e mesmo sua sabedoria)?

E hoje? Morreram as histórias? Tudo já foi contado, imaginado, mentido? Ou nosso mundo é moderno demais para essas coisas? Nós achamos que não. Existem por aí contos os mais diversos, esperando para ser contados, escutados e... imaginados. Achamos, e esperamos estar certos. Se sim, alguns deles te aguardam nas páginas deste Fabulário.

Escritores, produtores e organizadores do Fanzine Fabulário