sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Invisíveis porque querem (parte 2)

Antes de mais nada, gostaria de pedir desculpas pela sumiço geral. Já deve ter passado quase um mês e devo admitir que será um exercício de memória continuar a falar do Invisibilidades, 2° evento de ficção científica promovido pelo Itaú Cultural.

Mesa 2
Mercado Editorial

Com Ana Cris Rodrigues (clfc), Samir Machado de Machado (não), Ednei Procópio (giz), Richard Diegues (tarja) e Jaques Barcia (terraincognita).
Moderação: Sílvio Alexandre (www.universofantastico.com.br )

Edinei ProcópioEdinei, pulso firme e números 'de cabeça'

Fábio Fernandes, curador desta edição do evento, deve ter se realizado quando formou essa mesa. Já há tempos, como pudemos verificar no Fantasticon e nas entrelinhas de postagens em seu Blog, Fábio vem defendendo a idéia da WEB como terreno tão válido para a publicação quanto a mídia impressa. Além de tradutor de livros em papel (de clássicos como "O Homem do Castelo Alto") ele encabeça hoje dois projetos de revistas online com seu parceiro Jaques Barcia: Terra Incógnita e Kalíopes (disponível no site do CLFC). As duas com a pretensão de fazer barulho no cenário da FC nacional e chamar atenção para o que está sendo produzido lá fora.

PAPEL x WEB

Foi assim: Ana Cris, atual presidente do CLFC, e Jaques Barcia - ambos editores de publicações online - defenderam com romantismo a migração dos escritos para a Web, a publicação de textos, revistas, contos e o que mais for na internet. Associaram isto à divulgação maciça, maior visibilidade, mais leituras do material disponibilizado desta forma.

Edinei Procópio e Richard Diegues, editores respectivamente da Giz e da Tarja, se mostraram muito mais abertos e realistas. Reconhecem e acreditam no potencial da internet, mas não desmerecem a boa e velha mídia impressa. Já o Samir, da Não Editora... o negócio dele ainda é papel (mas não descartou nada).

6 MIL DOWNLOADS
Um argumento fraquinho usado no debate foi a quantidade de Downloads em comparação com a quantidade da tiragem de um material impresso. Ana Cris, que está entre trancos e barrancos tocando a digitalização do CLFC, disse que 3 autores convidados a publicar seu material na Somnium recusaram pois preferiram fazê-lo em um veículo impresso.

Ela deu uma leve debochada da atitude comparando a tiragem de 300 exemplares (pouco inferior, diga-se de passagem, à tiragem do Fabulário #1) aos 6.000 downloads da revista BlackRocket. Oras... 6mil exemplares vendidos, por exemplo, seria realmente algo a se admirar, não é? Mas 6mil downloads? Será que é grande coisa mesmo esse número de 6mil downloads? (Não me refiro à revista, ela é sim, muito boa e muito bem feita!)

Donwload não significa também que o material tenha sido lido não é? Ok... essa discussãozinha não é nada produtiva, oras... mas serve para tomarmos mais cuidado com a numerologia empregada neste ou naquele discurso.

Sílvio Alexandre e Ana Christina RodriguesSílvio Alexandre e Ana Cris Rodrigues

NUMEROLOGIA
Por falar em numerologia: Sílvio Alexandre surpeendeu na mediação, levando as perguntas anotadinhas, com dados específicos, numéricos, para colocar em debate. Só surpreendeu mais mesmo Edinei Procópio que, quem diria, apresentou números de cabeça, de institutos de pesquisa diferenciados.

Aliás, Edinei e Richard, respectivamente editores da Giz e da Tarja, pareceram realmente muito preparados, muito inteligentes, muitos "antenados". Se fosse para julgar a publicação dessas editoras pela credibilidade que seus editores conseguiram passar nesta ocasião, poderíamos sair comprando todos os livros. Mas, infelizmente, não é assim.

Se o discurso de Ana Cris e Jaques Barcia foi pautado pela qualidade literária, pela contribuição ao gênero e refinamento dos materiais, ficou a impressão (para algumas pessoas no público que conversaram comigo depois, eu realmente não senti isso na hora) que o discurso dos dois editores "impressos" estava pautado apenas por um critério muito duvidoso de "vendabilidade".

Bem... se podemos conferir o material editado por Jaques e Ana Cris na web, gratuitamente, para averiguar o material da Giz e da Tarja não adianta numerologia ou outras formas, místicas ou não, de especulação: resta ir às livrarias (ou pedir pela internet, que é mais garantido).

Richard Diegues e Edinei Procópio

ENQUANTO ISSO...
Às vezes a gente pode ter a impressão que o movimento na literatura fantástica brasileira se dá geograficamente no eixo Rio-São Paulo (ou no Sudeste) e no Nordeste. Quando fazemos isso, é bastante saudável considerar ingenuidade de nossa parte.

Samir Machado de MachadoSamir Machado de Machado, editor da Não e organizador do Ficção de Polpa
A Não Editora é uma editora independente de Porto Alegre, já velha conhecida do pessoal aqui do Fabulário, e que chamou a atenção da comunidade de ficção científica antes mesmo de existir, com a coletânea Ficção de Polpa. Explico: na época, o lançamento da primeira coletânea foi realizado pela editora Fósforo. (mais detalhes no site das editoras).

Samir Machado de Machado, um dos editores da Não e organizador das coletâneas de "literatura especulativa" Ficção de Polpa, veio para enriquecer a mesa. O discurso dele soa bastante distinto do que ouvimos dos demais editores presentes (online ou não) e do discurso que costumamos ouvir vindo dos dois outros "eixos" ("Nordeste" e "Sudeste", se é que eles existem assim, enquanto eixos).

Ele não se preocupa em separar "mainstream" de "literatura de gênero", não aponta dados desmotivadores da recepção do público, entre muitas outras coisas que prometem, a longo ou a imediato prazo (afinal, você já pode pedir os livros deles pela livraria cultura) um novo fôlego para a literatura fantástica nacional! (Ao menos, para uma delas).

DUAS FICÇÕES DE POLPA, NÃO UMA!
Esse detalhe me chamou a atenção. Quase não falei dele, mas Samir Machado de Machado, um dos editores da Não e organizador das coletâneas Ficção de Polpa estava presente. Como sempre, ele deu seu parecer (lúcido parecer) de quem está de fora do gueto, com visão geral e abrangente.

Em dado momento, Ana Cris falou com alegria do artigo publicado por ela (juntamente com Alexander Lancaster) na Scarium #19: disse que estava falando da mesma coisa que a antologia que veio depois (e sem conhecimento prévio um do outro, vale ressaltar) organizada pelo Samir. Ora! Eu li os dois materiais e tive contato com a conceituação de ambos...

Se há algo que eu posso dizer a respeito é que não, não é a mesma coisa. Samir Machado de Machado e Ana Cris Rodrigues não estavam falando da mesma coisa. Mas isso é assunto para um artigo à parte.

LÁ FORA E AQUI DENTRO
No discurso do Jaques Barcia (e do parceiro e curador, Fábio Fernandes, também) a gente houve algo que pode parecer às vezes um certo culto ao exterior, ao que é produzido lá fora. Bem... a impressão que os dá (digo impressão por que não li nossos contemporâneos estrangeiros ainda, então só tenho discursos de terceiros para me apoiar)... a impressão que dá é de que os americanos estão lá na vanguarda da Ficção Científica.

Fábio e Jaques não escondem nem um pouco a opinião de que deveríamos nos contaminar com a literatura e o espírito desses escritores (que são além de americanos, franceses, russos, romenos ou de onde quer que sejam afinal)... e, afinal, quem poderia ser contra eles nesta opinião? Mas, junto a isso, parecem levantar discretamente a bandeira de que esta é uma obrigação dos leitores/escritores de ficção científica que devem ler os textos em inglês, importar os livros via amazon.com e buscar contos e copylefts na web.

Não é assim a atitude mais mediadora que poderíamos esperar, é verdade, mas os dois também não estão lá fazendo só o gênero reclamão e questionador: é possível conferir que estão indo além disso logo na Terra Incógnita #1, trazendo ao conhecimento do público brasileiro novos autores.

Às pessoas, como eu, que não dominam o inglês a ponto de destrinchar os romances de 300 páginas que são produzidos no exterior, só nos resta esperar a facilidade de pequenos contos traduzidos, entrevistas e quem sabe, uma ou outra indicação, no futuro, vinda de um tradutor de confiança de alguma editora interessada em ficção científica para que traduzam, de repente, um Perdido Street Station tão breve quanto possível....
Jaques BarciaJaques Barcia

CONVERGÊNCIA, OTIMISMO E COBRANÇA

Três coisas ficaram claras no debate:

1) Há sim um crescimento dos gêneros fantásticos, no Brasil, nos últimos tempos (ainda vamos descobrir no que isso vai dar);

2) Parece haver uma tendência, ao menos no discurso da mesa, de liquefação (êêêê) nos limites destes gêneros, seja entre si, seja com aquilo que está "fora do gênero";

3) A mesa, muito sabiamente, cobrou qualidade dos escritores presentes. E acredite, um grande filão do público era composto por escritores ou pretensos escritores. Muito bem feita a cobrança, diga-se de passagem (e particularmente, bastante refinada no discurso do Jaques).

CONCLUSÕES
Este debate foi menos polêmico e mais produtivo que o anterior. A Mediação de Sílvio Alexandre ajudou muito para manter o nível e o preparo, conhecimento do terreno e diversidade de opiniões engrandeceu a mesa.

Nota dez para o Fábio, que parece ter captado as energias certas para a elaboração desta mesa!

Ah! E para aqueles que ficaram achando que "foi dito o mesmo de sempre, o que sempre dizem"... talvez não tenha sido acrescentado muito tempero ao caldo desta discussão, nada foi "repetido" inutilmente.


LUIZ PIRES,
é webdesigner e estudante
de Artes Plásticas no Unicentro
Belas Artes

13 comentários:

Fernando S. Trevisan disse...

Luiz, achei a abordagem um pouco superficial - por exemplo, embora a conceituação seja diferente, claramente há uma busca pelos temas populares e o espírito "aventuresco" tanto na iniciativa da Não como no "manifesto" da Ana e do Alexandre. Claro que as duas propostas são atualizadas, não se espera em nenhum dos casos os textos rasos e rápidos que caracterizaram a "Pulp" antiga...

Discordo também de que a comparação de "downloads" com tiragem seja fraca:

1. nem toda tiragem vende, mas todos os downloads com certeza (ou quase, enfim) foram para o computador da pessoa.

2. É muito mais fácil controlar o download (saber quantos, como, onde, quando) do que a tiragem, que há tempos é alvo de desconfiança na relação editor/escritor.

3. Quanta gente compra livro e não lê? Se a tiragem é de 500 livros, seria exagero dizer que 10% não são vendidos e outros 10% são vendidos, mas não lidos? Será que dos 6000 downloads, não teve mais de 400 pessoas lendo o conteúdo?

4. A métrica de "downloads" é, ainda hoje, a métrica da web. A análise de propagandas em web-sites leva em consideração a quantidade de "exibições" - isto é, downloads - versus a quantidade de cliques - isto é, leitura. Atualmente, não há como "verificar" se a pessoa de fato leu. Mas isso faz diferença? Se ela chegou até a página, se baixou o conteúdo, é que ele atingiu essas 6000 pessoas de alguma forma, interessou de alguma forma. Isso pode gerar anúncios on-line (e internos ao texto publicado) que podem ajudar a subsidiar iniciativas on-line.

Mas o que mais me incomodou, de verdade, foram os erros de revisão e de português que permeiam o texto todo. De "massiço" até chamar a Ana Cristina de Ana Chris...

Enfim, acho que foi uma mesa ótima, como você colocou, que não deu respostas - pois elas não existem ainda - mas suscitou debate. Isso que importa!

Abs

Luiz Pires disse...

Olá Trevisan,
obrigado pelas críticas, vamos a elas:

Sobre o Pulp, a abordagem foi realmente superficial, pretendo falar mais detalhadamente no futuro. Mas mcomo você chamou a atenção para isso vou dar uma adiantada. Você afirma que "claramente há uma busca pelos temas populares e o espírito 'aventuresco'". Não sei... você leu a Antologia ficção de Polpa 1? E a 2?

Se sim, o que viu de "aventuresco" nela? E o que, exatamente, você está chamando de "popular"? Não que eu discorde dessa sua afirmação, mas não encontrei rapidamente isso ao buscar na minha memória os contos da coletânea Ficção de Polpa. Bem, ao menos nos meus preferidos.

Acho que o ponto de partida das duas iniciativas é sim o mesmo, sem dúvida. Mas, pelo que eu vi de ambos (e li ambos), há uma clara diferença entre as abordagens e entre os "critérios de atualização" empregados. Vamos ver se eu consigo programar um artigo detalhando minha visão nestas férias (lê-se dezembro).

Sobre os Downloads, não aprofundei muito a questão mesmo. O que você diz, esses pontos que levantou, são, de fato importantes. Eu acvrescentria mais um ponto interessante: o material é vendido ou distribuído gratuitamente?

Seja ele impresso ou digital, isso também muda o modo de vermos uma "tiragem" (seja digital ou impressa) não é? Se eu distribuí em um só dia 1000 fanzines gratuitos é uma coisa, mas se eu vendi 1000 fanzines em um só dia à, por exemplo, 5 reais cada um, bem... aí o mérito é outro.

Eu não pretendi, com meu comentário, desmerecer a quantidade, mas sim questionar o seu valor. Não no sentido de torná-lo inválido, mas de procurar acender uma reflexão sobre a "qualificação" desse valor.

Talvez ajudasse eu ser mais cuidadoso com as palavras.

Já quanto aos erros, Trevisan, é uma grande falha dos meus textos essa revisão, como você e outros amigos já vem me alertando a tempos. Peço sinceras desculpas.

Já corrigi os erros por você apontados e sou muito grato, inclusive, se você pudesse apontar mais algum.

Muito obrigado realmente pela colaboração, Trevisan. E eu vou tentar ficar esperto para estas questões de revisão, e para o modo como me coloco demasiado "elipticamente" (mas sem a parte charmosa da elipse, eu sei) sobre algumas questões.

Ah! Só mais uma coisinha: "não deu respostas (...) mas suscitou debate. Isso que importa!"
Puxa, eu tenho que discordar, acho que, além disso, há mais coisas importantes também... (inclusive nessa mesa);

Abraços
Luiz

Luiz Pires disse...

ops...
miol desculpas... eu também não revisei meu comentário!

assim que conseguir fazer isso, deleto este e posto o revisado.

(desculpas, desculpas)

Mas já vou avisando... ele ainda conterá alguns erros, hehehe

Luiz Pires disse...

Ah!

Sobre a pulp, tem mais uma coisa que eu gostaria de entender do seu comentário:
"não se espera em nenhum dos casos os textos rasos e rápidos que caracterizaram a 'Pulp' antiga..."

Como assim? No Ficção de Polpa 2 (cito-o por que foi o último que li) eu vi contos muito rápidos e - se estivermos falando da mesma profundidade - com a profundidade de um pires. (E qual o problema nisso?)

E grandes autores não publicaram em Pulp Magazines? Não foi o caso do Lovecraft, por exemplo? Do Bradbury? Eles eram rasos? Eles não caracterizaram a pulp antiga?

Acho que não entendi a afirmação...

Abs
Luiz

Jacques Barcia disse...

Olá, Luiz. Gostei do apanhado geral. Continuem o ótimo trabalho.

Só a título de esclarecimento (porque talvez não tenha ficado claro em meu discurso), eu não defendo a web com romantismo, mas com paixão. Inclusive, me acho bem realista, ainda que esperançoso.

Lembro de ter dito (porque sempre digo), que papel e web não são auto-excludentes. São dois meios diferentes, que servem a propósitos diversos (e às vezes iguais). Mas enquanto a web é infinitamente mais versátil, barata e abrangente, o papel é absolutamente mais confortável, amigável e psicologicamente um bem mais valioso por ser tangível.

Agora, se eu tenho uma ferramenta simples e barata para me conectar ao universo dos leitores, ou para criar um vetor de distribuição para atender a uma demanda reprimida (como é o caso da FC brasileira), acho fundamental abraçar a tecnologia.

Uma outra informação: O Perdido Street Station está há tempos nas mãos de uma grande editora, que não o publicou porque achou que o romance não teria público. Eu sei que o recado parece espartano às vezes, mas depender das editoras brasileiras para apreciar FC é, literalmente, se excluir do contexto atual desse segmento. É uma triste verdade e uma pena, mas é a realidade.

Abraços!

P.S.: E no próximo evento, vamos se misturar, hein, rapá! Tem um muro invisível separando algumas pessoas e esse muro tem que cair!

Luiz Pires disse...

Jaques,
obrigado pelo apoio e pelas palavras!

Me redimo quanto a esta questão em futuras postagens, ok! Valeu pelo esclarecimento!

E assino em baixo! A Web está aí com sua gama de ferramentas e estamos usando! Entendo inclusive por que você (e o Fábio) são tão enfáticos nessas questões (conhecer a FC de fora e investir na internet) e apoio o discurso!

Nos falamos no próximo evento, então!

Um abraço!
Luiz

Fábio disse...

Faço minhas as palavras do Jacques, Luiz: precisamos parar para conversar e trocar idéias!

E agradeço os ótimos posts sobre o Invisibilidades e as questões levantadas! Isso é fundamental, porque só assim a gente muda e cresce. Valeu!!

abraço,
Fábio

Octavio Aragão disse...

Abaixo o muro invisível!

E viva o exagero! :-D

Fernando S. Trevisan disse...

Luiz, valeu pela resposta, é bom quando rola diálogo :) Vamos lá!

Sobre o Pulp, a abordagem foi realmente superficial

Não dizia sobre o pulp em si, mas sobre todo o teu relato da mesa.

Você afirma que "claramente há uma busca pelos temas populares e o espírito 'aventuresco'". Não sei... você leu a Antologia ficção de Polpa 1? E a 2? (...) E o que, exatamente, você está chamando de "popular"?

Li só a 1 e não vi nada de aventuresco e popular, exceto a capa :)

Mas, o que digo de semelhança é o que você mesmo aponta logo depois no seu comentário, do ponto de partida. O resultado nem sempre (quase nunca) é o que se planejava inicialmente, mas que há uma semelhança de iniciativa ali, com certeza.

Espero que consiga teu artigo do Pulp! Muito me interessa, mesmo.

Sobre os Downloads, não aprofundei muito a questão mesmo. O que você diz, esses pontos que levantou, são, de fato importantes. Eu acrescentaria mais um ponto interessante: o material é vendido ou distribuído gratuitamente?

Um ponto importantíssimo: faz enorme diferença, sim. Material para acesso on-line que é cobrado invariavelmente resvala ou despenca mesmo pro fracasso. Já o impresso consegue criar modelo de negócios com venda de exemplar.

Como eu disse, são métricas diferentes para meios diferentes. No cinema, na música, as métricas variam. Um texto on-line usa outro meio para chegar ao leitor e portanto tem outra abordagem de marketing, de divulgação, avaliação de receptividade, etc.

Eu não pretendi, com meu comentário, desmerecer a quantidade, mas sim questionar o seu valor. Não no sentido de torná-lo inválido, mas de procurar acender uma reflexão sobre a "qualificação" desse valor.

Aí pode ser culpa minha, Luiz, que vejo mais no seu comentário do que o que realmente existe.

Acontece que essa discussão é antiiigaaa no meu meio de trabalho - desenvolvimento de sistemas online e web-sites - então sempre que aparecem esses comentários comparando um com o outro, eu meio que piro. Não que meus argumentos sejam ruins - ehehehe - mas é um pouco pira minha defender a coisa toda, mesmo quando não existe ataque algum.

Como disse, acho que são métricas diferentes, meios diferentes, tudo MUITO diferente. E que pode ser complementar um ao outro, quando bem utilizado.

Já quanto aos erros, Trevisan, é uma grande falha dos meus textos essa revisão, como você e outros amigos já vem me alertando a tempos. Peço sinceras desculpas.

Cara, acontece. Não "julgo" o texto por isso mas acho que é sempre bom cuidar, tanto para facilitar a leitura (nem vamos lembrar daquele comentário no texto sobre diabo, dante, etc) como para dar "respeitabilidade", por assim dizer.

Sobre a tua postura, repito o que conversamos em PVT, pelo msn: acho importante a crítica, especialmente aquela feita "no calor da hora" (embora minha postura seja geralmente mais reservada e lenta, nesse sentido).

Acho que é importante apontar as coisas e gerar debate. Às vezes pode rolar um exagero? Pode, mas se não há (como é o caso) má-intenção, as coisas resolvem-se no diálogo e pronto. :)


Puxa, eu tenho que discordar, acho que, além disso, há mais coisas importantes também... (inclusive nessa mesa);

Ei, não me interprete errado - embora talvez eu que tenha me expressado mal.

O que quis dizer é que - mais importante que dar respostas é suscitar o debate. Claro que houve coisas tão ou mais importantes naquela mesa e na vida em geral, heheheeh :)

Por fim:

Como assim? No Ficção de Polpa 2 (cito-o por que foi o último que li) eu vi contos muito rápidos e - se estivermos falando da mesma profundidade - com a profundidade de um pires. (E qual o problema nisso?)...Acho que não entendi a afirmação...

E aqui fica um grande "mea culpa", pq eu falei besteira mesmo.

A questão toda que eu criticava no teu texto era que você cita que são duas coisas bem diferentes ("se há algo que eu posso dizer a respeito é que não, não é a mesma coisa."). Mas, como você mesmo admitiu, o ponto de partida das duas iniciativas é sim o mesmo, sem dúvida.

É isso, creio, que a Ana queria dizer com a fala dela: ao mesmo tempo, sem se conhecer, sem conversar, pessoas estavam dando passos em direções semelhantes - mesmo que com resultados diversos. :)

Abs e viva o diálogo!

Luiz Pires disse...

Trevisan,

Superficial
Já tinham me dito que meu outro relato foi superficial. Achei que tinha melhorado um pouquinho nesse.

Mas veja como ele ficou grande! Teria ficado kilométrico se eu fosse me aprofundar mais!

Algumas coisas, é claro, como o Pulp e os Downloads, foram propositalmente deixados em suspenso...

Bem... valeu a dica. Vamos ver se eu consigo superar essa deficiência com o tempo.


Downloads, métrica e meio

Olha só, eu também trabalho com isso! (ainda que perto do Trevisan eu seja só uma criança no assunto)

A questão é polêmica sim, Trevisan, bem polêmica. Mas acho que a grande questão está no que você disse: são meios diferentes. A comparação entre eles deve ser feita levando em conta suas peculiaridades.

O que eu entendi na mesa em questão é que a Ana estava usando essa quantidade de 6mil downloads (em contraponto a quantidade de 300 exemplares impressos pela qual os escritores preferiram não publicar na Somniun) demasiado retoricamente. E com isso quero dizer ocultando no discurso essas especificidades, para fazer algo parecer melhor (ou ainda melhor) do que de fato é.

Aí não dá. Então eu pretendi chamar a atenção para isso. Na verdade, esse é um recurso que eu considero abonivável na comunidade "paulista-carioca" de ficção-científica e congêneres. Em toda palestra, bate-papo e em uma parte razoável dos artigos que eu leio na internet tem alguma "bengala de discurso" (como os termos "fandom" e "mainstream" empregados loucamente e com critérios duvidosos).

A estratégia é simples, consiste em falar uma coisa como se fosse óbvia e consensual e com isso esconder, mais ou menos discaradamente, uma série de pormenores importantíssimos.

Claro, fazemos isso o tempo inteiro com a linguagem, mas em menor grau - caso contrário levaríamos horas para dizer qualquer coisa. Elipses são normais. Mas quando isso é usado como um recurso, com intencionalidade, tem outro nome: falácia. E pode vir a ser interpretado como falta de sinceridade.

As lacunas no discurso podem ser eficientes contra as "massas", mas podem "engulir" um interlocutor!


Dois Pulps - uma partida, dois destinos

Acho que há um equívoco quando você diz "O resultado nem sempre (quase nunca) é o que se planejava inicialmente, mas que há uma semelhança de iniciativa ali, com certeza."

O ponto de partida sim, é o mesmo. Mas a iniciativa, que é o que se faz a partir disso, isso pelo que eu vi é completamente diferente! Os resultados planejados (pelos dois) são inicialmente diferentes entre si.

Entendo o que a Ana quiz dizer, mas o que ela disse foi ligeiramente diferente. Os discursos da Não e do 'manifesto' são muito distintos - e isso, a finalidade, o objetivo de cada iniciativa, é ao meu ver muito mais importante do que o ponto de partida.

Ainda que não exista mentira na afirmação da Ana de que em algum momento tanto ela quanto o Samir estavam interessados pela mesma coisa, as conclusões que tomaram a partir disso foram bastante diversas.

A analogia com o Metrô de São Paulo funciona: se ambos chegaram até a Sé, um vai para Itaquera, outro para Barra-Funda. Neste caso metafórico, direções completamente opostas.

Pretendo chamar atenção aos detalhes desse percurso mais adiante, mas cada coisa a seu tempo.


Abraços!
E viva o diálogo (exagerado ou humilde)

Fernando S. Trevisan disse...

Luiz, está bem melhor que o anterior, sim :) Eu não tinha feito uma comparação com ele, mas sim com tudo que foi falado na mesa.

Mas, quem sou eu pra falar, que até agora não soltei o meu relato?

Quanto a questão de métrica e downloads, concordo com você, mas aí entendo que a comparação da Ana era provocação e - bem, se era mesmo como pensei, funcionou :D

Lembrando que o contexto da Ana era visibilidade ao autor. Quando ela falou isso, ela disse nessa linha, o cara prefere publicar para uma tiragem de 300 do que em um download de 6000 - mas o que te dá visibilidade? O que te coloca no foco do leitor?

E aí é todo um debate que pode levar semanas e, creio eu, jamais chegará a lugar nenhum em termos conclusivos. É tudo ferramenta, na minha visão; meios para atingir fins. Desprezar a internet não é o caminho; nem desprezar o impresso, claro.

E, novamente lembrando, não é o que o Jacques, Fábio, Ana, propõem (desprezar o impresso), no que entendo. Apenas valorizar mais o online, que é o tempo todo avaliado como algo desprezível, sem valor e tratado sem a seriedade e competência que deveria.

Taí a Terra Incognita para provar que "gratuito" e "online" não significa "de qualidade ruim"... :)

Quanto ao Pulp, que já deu pano pra manga, vou aguardar teu artigo para pesar mais argumentações, embora em linhas gerais concorde contigo: ambos saíram da sé, mas cada um está numa direção. Ainda assim, estavam todos na Sé... :)

Abs!

Samir Machado de Machado disse...

Oi Luiz,

Muito bacana a análise da mesa redonda. Reforço que não entendo a diferenciação entre mainstream e, sei lá como definir, "de gueto" como uma diferenciação de estilo, talvez no máximo, de público. Mas enfim.

Quando comecei a fazer o Ficção de Polpa, não sabia da existencia do CLFC nem tinha idéia de que havia um publico preocupado em produzir, pensar e discutir essa literatura. Ignorancia minha talvez, ignorancia nossa aqui do sul, provavelmente. Tampouco os autores envolvidos, que no primeiro volume eram todos aqui do sul, tinham essa noção. Usamos a idéia do pulp como ponto de partida, sim, onde estamos chegando não sei dizer ainda. Ainda estou surpreso que a tiragem do primeiro volume tenha esgotado.

Octavio Aragão disse...

Pois é, Samir. Mas a gente aqui no Sudeste tinha noção de vocês no Sul, graças ao Max Mallmann, que sempre nos avisou que havia um núcleo produtor e auto-suficiente de literatura pop por aí.

Finalmente a quebra dessa barreira com o Ficção de Polpa. Que o futuro seja promissor.